D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira

     por Daniel Costa Pereira

     Gonçalo Rodrigues de Palmeira, era filho de D. Rodrigo Froilaz de Trava e de D. Urraca Rodrigues de Castro. e primo do Conde Fernão Peres de Trava, que se diz ter sido amante de D. Teresa, viúva do Conde D. Henrique. O Nobiliário atribuído ao Conde de Barcelos D. Pedro diz que por diferenças que teve com seu sobrinho D. Álvaro Pires de Castro, no tempo do rei de Leão D. Fernando o Santo, a quem serviu, veio para Portugal, onde reinava D. Sancho I, que lhe deu por seus serviços os coutos de Palmeira e Pereira, junto do rio Ave, na província de Entre-Douro-e-Minho, e em virtude deste senhorio se chamou de Palmeira. Mas isto não pode ser totalmente verdadeiro porque o mesmo D. Gonçalo Rodrigues fez doação do mesmo Couto de Palmeira ao Mosteiro de Landim (1) em 1177 ou antes e, por essa altura ainda reinava D. Afonso Henriques. Ainda segundo O Nobiliário acima referido, terá tomado parte no combate do Xerez contra os mouros, sob as ordens do infante D. Afonso, filho do rei D. Fernando II, onde se distinguiu pelo grande bravura com que se bateu. Não lhe agradando o modo como se processou a repartição dos vastos despojos da batalha a que procedia D. Álvaro Pires de Castro, seu sobrinho, travou acesa discussão com este perante o rei, acusando-o de ser pouco activo no combate apesar da grande fama de que gozava, em seu entender sem justificação. Um vassalo de D. Álvaro interveio a favor do seu senhor acusando D. Gonçalo de ser mentiroso. Em resposta, D. Gonçalo deu-lhe tamanho golpe de espada num ombro que o partiu de alto a baixo, até à cintura. Como o rei Fernando II o quisesse justiçar, teve que procurar refúgio cá. Estes factos poderão ser verdadeiros, mas terão ocorrido com outro Gonçalo Rodrigues, talvez com um seu neto homónimo. Na verdade, o couto de Palmeira ter-lhe-á sido doado por D. Afonso Henriques e, sendo contemporâneo e servidor do nosso primeiro rei, não pode ter servido a D. Fernando II nem ter participado na batalha do Xerez, que ocorreu em data posterior à da sua morte.

     No ano de 1112, numa doação feita por Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, fala-se no mordomo da casa da rainha (2) na pessoa de D. Gonçalo Rodrigues, na época cargo de maior preeminência que todos os outros. No ano seguinte este cargo já era de outra pessoa. Este mesmo D. Gonçalo Rodrigues, ainda antes da fundação da nacionalidade, já era o tenente da rainha na terra de Vermoim e, estando ligado aos Travas por laços familiares, parece ter estado no campo oposto ao de D. Afonso Henriques quando este, em 1128, se rebelou contra a mãe. Daí que o castelo de Vermoim tenha sido dos últimos a aderir ao partido do futuro rei de Portugal. Porém, a partir dessa altura, participou activamente em inúmeras empresas guerreiras do rei, designadamente no cerco e tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, e na tomada de Moura, no Alentejo, em 1166. Foi um dos portugueses que assistiram ao convénio entre o nosso primeiro rei e uma parte dos cruzados e figura frequentemente na chancelaria do reino. Em 1136 nos forais de Miranda e Seia o seu nome é mencionado. Também confirmou a doação de D. Afonso Henriques, de 1142, para reconstrução do castelo de Leiria e figura ainda, confirmando, um contrato para a fundação do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Foi mordomo-mor do reino. Como recompensa dos valiosos serviços prestados, D. Afonso Henriques e não D. Sancho I, doou-lhe os coutos de Palmeira e Pereira, como já foi referido antes.

     Parece ter feito a doação do couto de Palmeira ao Mosteiro de Landim. O Pe. António Carvalho da Costa em Corografia Portuguesa refere 1177 como sendo o ano em que D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira fez doação do Couto de Palmeira ao Mosteiro de Landim indo fazer o seu assento na Casa de Pereira em Sanfins de Riba de Ave. Na Crónica dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho o frei D. Nicolau de Santa Maria diz que os filhos de D. Gonçalo Rodrigues ratificaram a doação que o seu pai fizera ao dito mosteiro nos termos seguintes:

     «Nós os filhos de D. Gonçalo Rodrigues de Pereira, (...) de comum consentimento e com o mesmo ânimo fazemos esta Escritura de firmeza, a qual nunca de nós em nossa vida, nem de nossos filhos nem de nossa geração depois de nós será lícito quebrar. Somos, pois, todos contentes e é nossa vontade confirmar com juramento, e debaixo de nossa benção ou de nossa maldição, o Couto de Palmeira de que nosso pai D. Rodrigues de boa memória fez doação ao Mosteiro de Santa Maria de Nandim e à Ordem dos Cónegos de Santo Agostinho por remédio de sua alma, para que fique para sempre firme e estável, de tal maneira, que aquele prelado que presidir no dito Mosteiro possa usar livremente de todo o poder no dito couto à sua vontade e de seus Cónegos, que aí moram. Nem algum de nós em nossa vida, nem nossos filhos depois de nós, teremos no dito couto vassalo algum, ou arrecadaremos dos seus moradores algum direito ou foro. E qualquer de nós ou de nossos filhos que esta Escritura guardar, alcance a benção de Deus, e Nosso Senhor Jesus Cristo lhe conceda viver felizmente neste mundo e no outro; porém, o que o contrário entender fazer, seja maldito e excomungado neste mundo e no outro viva infelizmente em pena. Foi feita esta Carta de confirmação no mês de Junho na era MCCXV(3) reinando em Portugal El-Rei Dom Afonso Henriques nosso Senhor e sendo Arcebispo de Braga D. Godinho». (4)

     D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira é tido pelos genealogistas como quinto avô (5) de D. Nuno Álvares Pereira, embora isso seja bastante duvidoso. D. Gonçalo Rodrigues surge em doações e outros documentos da chancelaria do tempo de D. Teresa a partir de 1110. Isso significa que terá nascido à volta de 1090 ou antes. Por outro lado, diz-se que D. Nuno Álvares Pereira nasceu em 1360, ou seja, entre o nascimento de um e outro medeia um período de tempo de cerca de 270 anos e seis gerações. Isso quer dizer que, em média, cada um dos elementos desta cadeia nasceu quando o pai tinha 45 anos, o que é um número demasiado alto para que possamos acreditar que a genealogia de D. Nuno Álvares Pereira, tal como é apresentada nos Livros de Linhagens, seja verdadeira. 

     Também se diz que o filho de D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira, D. Rui Gonçalves de Pereira, terá participado na batalha de Navas de Tolosa. Pinho Leal, em «Portugal Antigo e Moderno», diz que foi um dos mais intrépidos guerreiros do deu tempo, que nasceu em 1192, e foi um dos capitães mandados por D. Afonso II com um exército em socorro de Afonso VIII de Castela contra o poderio de Mahomet IV, que estava a conquistar as Espanhas». E acrescenta: «Tais actos de bravura praticados na famosíssima batalha e gloriosa vitória de Navas de Tolosa, em 1212, causou espanto a todo o exército cristão, muito mais porque D. Rui Gonçalves Pereira não tinha então mais de 20 anos». Isto até pode ser verdadeiro em relação a algum Rui Gonçalves, mas não pode ser filho de D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira, que muitos anos antes de 1192 tinha falecido, embora possa haver entre ambos alguma relação de parentesco. 

    

Notas:

(1) - Sobre a história do mosteiro de Landim, poderá consultar-se o site https://www.mosteirodelandim.pt/origens.asp.

(2) - Em alguns documentos antigos a mãe de D. Afonso Henriques, D. Teresa, ou D. Tareja como se dizia no tempo em que viveu, era chamada de rainha.

(3) - O ano de 1215 do calendário em uso na época da elaboração do documento corresponde ao ano de  1177 do calendário actualmente em vigor, visto que existe uma diferença entre um e outro de 38 anos: 1215 - 38 = 1177.

(4) - Documento citado por Maria de Fátima Castro em «O Mosteiro de Landim: Contributos para o estudo da propriedade eclesiástica».

(5) - Nos Livros de Linhagens diz-se que D. Nuno Álvares Pereira era filho do Prior da Ordem do Hospital  D. Álvaro Gonçalves Pereira, neto do bispo D. Gonçalo Gonçalves Pereira, bisneto de D. Gonçalo Pereira, trineto de D. Pedro Rodrigues de Pereira, tetraneto de D. Rui Gonçalves de Pereira e quinto neto de D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira.